A ciência brasileira perdeu um de seus maiores expoentes. O neurocientista Ivan Izquierdo, uma das maiores referências mundiais no estudo da memória, faleceu em Porto Alegre, aos 85 anos. A notícia foi recebida com consternação pela comunidade acadêmica nacional e internacional.
Izquierdo construiu uma carreira que inspirou gerações de pesquisadores. Nascido em Valência, na Espanha, em 1937, mudou-se ainda criança para a Argentina, onde se formou em Medicina pela Universidade de Buenos Aires. Posteriormente, radicou-se no Brasil, onde desenvolveu a maior parte de sua carreira científica, naturalizando-se brasileiro. Tornou-se professor emérito da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e pesquisador do Instituto do Cérebro, instituição da qual foi um dos fundadores.
Ao longo de mais de cinco décadas de trabalho ininterrupto, Izquierdo dedicou-se a desvendar os mecanismos da memória humana. Sua principal contribuição científica foi a descoberta do papel fundamental da amígdala cerebral no processo de consolidação da memória. Em seus experimentos, demonstrou que a estimulação ou inibição dessa estrutura do sistema límbico poderia facilitar ou impedir que memórias de curto prazo se tornassem memórias de longo prazo.
Essas descobertas, publicadas em periódicos como Nature e Science, revolucionaram o campo da neurociência e abriram novas perspectivas para o tratamento de condições como o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), fobias e doenças neurodegenerativas como o Alzheimer. Seu trabalho sobre a modulação emocional da memória é referência obrigatória em cursos de psicologia, psiquiatria e neurociência em todo o mundo.
Ao todo, Izquierdo publicou mais de 400 artigos científicos e diversos livros, entre os quais se destacam "Memória", "Sobre a Memória" e "O Cérebro e a Mente". Sua obra didática formou incontáveis estudantes e pesquisadores, consolidando sua reputação como um dos grandes comunicadores da ciência no Brasil.
O impacto de seu trabalho pode ser medido não apenas pelo número de citações – que o colocam entre os cientistas brasileiros mais referenciados internacionalmente – mas também pela rede de pesquisadores que ajudou a formar. Sob sua orientação, dezenas de mestres e doutores foram preparados, muitos dos quais hoje lideram grupos de pesquisa em universidades brasileiras e estrangeiras.
Izquierdo recebeu inúmeras honrarias ao longo de sua trajetória. Foi agraciado com o Prêmio Almirante Álvaro Alberto, a mais alta distinção científica do Brasil, e com a Ordem Nacional do Mérito Científico, além de ter recebido o título de Doutor Honoris Causa por diversas universidades. Era membro titular da Academia Brasileira de Ciências, da Academia de Ciências do Mundo em Desenvolvimento e de várias outras sociedades científicas internacionais.
A notícia de sua morte provocou reações emocionadas no meio científico brasileiro e internacional. Um neurocientista luso-brasileiro, que preferiu não se identificar, afirmou: "É uma grande perda para a ciência brasileira e mundial. Ivan foi um pioneiro que colocou o Brasil no mapa da neurociência global. Sua ausência será imensamente sentida por todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo e aprender com ele."
A PUCRS emitiu nota oficial lamentando profundamente o falecimento. "O professor Ivan Izquierdo dedicou sua vida ao avanço do conhecimento e à formação de novos cientistas. Sua paixão pela ciência e sua generosidade intelectual deixaram marcas profundas em nossa comunidade universitária. Ele é, e sempre será, uma referência para todos nós."
O presidente da Academia Brasileira de Ciências também manifestou pesar, classificando Izquierdo como "um dos maiores cientistas que o Brasil já teve" e ressaltando que "sua obra permanece viva em cada descoberta que inspirou e em cada aluno que formou".
O velório será realizado em Porto Alegre, aberto ao público na PUCRS. A família pede que, em vez de flores, sejam feitas doações para instituições de pesquisa em neurociência.
Ivan Izquierdo deixa um legado que transcende suas descobertas científicas. Os livros que escreveu, os alunos que formou e as instituições que ajudou a construir continuarão a perpetuar seu nome na história da ciência brasileira. A perda é imensa, mas sua contribuição ao conhecimento humano é eterna. Como ele mesmo gostava de dizer, a memória é o que nos torna quem somos – e sua memória, certamente, permanecerá viva na ciência e na mente de todos que foram tocados por seu trabalho.
