Angra 1 realiza parada para reabastecimento de combustível
A usina nuclear Angra 1, localizada em Angra dos Reis (RJ), iniciou nesta segunda‑feira (24 de junho de 2024) uma parada programada para reabastecimento de combustível e manutenção preventiva. A operação, conduzida pela Eletronuclear – subsidiária da Eletrobras responsável pela geração nuclear no Brasil – tem prazo estimado de 45 dias e envolve mais de 1.200 profissionais entre técnicos, engenheiros e inspetores.
A iniciativa segue o ciclo normal de operação da usina, que a cada 18 meses interrompe a geração para substituir aproximadamente um terço dos elementos combustíveis do reator e realizar inspeções obrigatórias em sistemas de segurança, turbina, gerador e equipamentos auxiliares.
Detalhes da parada programada
O reator de Angra 1 é do tipo PWR (Pressurized Water Reactor), o mesmo modelo utilizado em grande parte das usinas nucleares do mundo. Durante a parada, o vaso do reator é aberto e as varetas de combustível nuclear são removidas e armazenadas na piscina de combustível usado, enquanto os novos elementos são instalados. Paralelamente, equipes especializadas realizam testes não destrutivos em soldas, inspeção de tubos do gerador de vapor, calibração de instrumentos e manutenção em válvulas e bombas.
A Eletronuclear destaca que todas as atividades obedecem a um cronograma rigoroso, aprovado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e alinhado às melhores práticas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Cada etapa é documentada e auditada por órgãos independentes.
Cronograma da parada
O desligamento do reator ocorreu na manhã de segunda‑feira, seguindo uma redução gradual de potência nas horas anteriores. A partir daí, a equipe técnica iniciou o resfriamento do reator para permitir o acesso ao núcleo. A abertura do vaso do reator está prevista para o terceiro dia, e a retirada dos elementos combustíveis usados ocorrerá ao longo da primeira semana. A fase de recarga e reinserção dos novos elementos deve durar aproximadamente 15 dias. Após o fechamento do vaso, iniciam‑se os testes de estanqueidade e a partida gradual do reator, que inclui a elevação controlada da potência até atingir 100%.
Força de trabalho mobilizada
Além dos 350 funcionários permanentes de Angra 1, a Eletronuclear contratou cerca de 850 trabalhadores temporários, entre técnicos de manutenção, inspetores, soldadores e engenheiros. Muitos deles vêm de outras regiões do país e até do exterior, devido à especialização necessária. A empresa montou alojamentos e refeitórios extras para atender à demanda. A mão de obra qualificada é um dos pontos críticos para o sucesso da parada, e a Eletronuclear investe em treinamento contínuo.
Investimentos em manutenção e modernização
A parada também é oportunidade para investimentos de modernização. Em 2023, a usina passou pela substituição dos geradores de vapor, um dos maiores investimentos já realizados no parque nuclear brasileiro. Nesta parada, está prevista a troca de componentes do sistema de refrigeração e a atualização de sistemas de controle, que aumentarão a eficiência e a segurança da unidade.
Somente com a manutenção preventiva e corretiva, a Eletronuclear estima investimentos superiores a R$ 150 milhões no ciclo atual. Esses gastos fazem parte do plano de extensão de vida útil de Angra 1, que originalmente era de 40 anos e já foi estendida para 60 anos, com possibilidade de novos incrementos.
Segurança em primeiro lugar
A segurança nuclear é o pilar que orienta todas as operações. Antes de iniciar a parada, a usina passou por uma fase de redução de potência controlada, seguindo procedimentos padronizados. Durante o período de desligamento, a equipe de segurança permanece em alerta máximo, e todos os sistemas de emergência são testados exaustivamente.
A usina Angra 1 acumula mais de 250 mil horas de operação comercial segura. Nos últimos cinco anos, não foram registrados eventos classificados como “incidentes significativos” na escala internacional de eventos nucleares (INES). A empresa mantém um programa contínuo de capacitação dos operadores, que treinam em simuladores de última geração.
Impacto no fornecimento de energia
Com potência instalada de 640 MW, Angra 1 representa aproximadamente 1% da capacidade de geração do Sistema Interligado Nacional (SIN). Durante a parada, a energia deixada de ser gerada será suprida por outras usinas, principalmente hidrelétricas e termelétricas, sem risco de desabastecimento. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) já havia incluído a parada no planejamento semestral.
A geração nuclear é considerada energia de base, por operar de forma contínua e estável, complementando fontes intermitentes como solar e eólica. A parada de Angra 1 não deve afetar o preço da energia no curto prazo, segundo analistas do setor.
Impacto econômico e social
Angra 1 gera empregos diretos e indiretos na região da Costa Verde. Durante a parada, a injeção temporária de renda com a contratação de trabalhadores extras movimenta o comércio local de Angra dos Reis e Paraty. Hotéis, restaurantes e serviços de transporte se beneficiam. A Eletronuclear também realiza campanhas de saúde e segurança para a comunidade durante o período de parada.
Do ponto de vista econômico nacional, a energia nuclear contribui para a diversificação da matriz e reduz a dependência de hidrelétricas em períodos de seca, agregando resiliência ao sistema. O custo da geração nuclear é competitivo com termelétricas a gás natural, especialmente quando se considera a estabilidade de preços do combustível nuclear.
Operação integrada com Angra 2
A usina irmã Angra 2, com potência de 1.350 MW, continua operando normalmente. Juntas, as duas usinas geram cerca de 3% da energia elétrica consumida no Brasil. A geração nuclear evita a emissão de milhões de toneladas de CO₂ por ano, contribuindo para as metas climáticas do país.
A construção de Angra 3 permanece paralisada, aguardando a definição de modelo de negócio e fontes de financiamento. Estudos indicam que a conclusão da terceira usina poderia adicionar mais 1.405 MW ao sistema, com benefícios para a segurança energética nacional.
Regulamentação e fiscalização
As atividades de Angra 1 são fiscalizadas pela CNEN, que mantém inspetores residentes na usina e realiza auditorias periódicas. A parada programada é uma oportunidade para a CNEN verificar in loco as condições de segurança e o cumprimento das normas técnicas. Relatórios detalhados são publicados no site do órgão. A usina também é submetida a missões de revisão da AIEA, que avaliaram positivamente a operação brasileira nos últimos anos.
Histórico de paradas e perspectivas
Esta é a 25ª parada programada para reabastecimento de Angra 1 desde sua entrada em operação comercial, em 1985. A usina já demonstrou alta confiabilidade, com fator de capacidade médio superior a 80% nos últimos anos. A expectativa é que, após a conclusão dos trabalhos, a unidade retorne ao sistema elétrico no início de agosto de 2024.
A Eletronuclear mantém um canal de comunicação com a comunidade local e promove audiências públicas para esclarecer dúvidas sobre a operação da usina. A empresa reafirma seu compromisso com a transparência e a segurança, pilares fundamentais da atividade nuclear.
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