Queda da inflação está mais lenta que o esperado, afirma Campos Neto

Por Redação O Tabloide 28 de outubro de 2024 4 minutos de leitura

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que a queda da inflação no Brasil está ocorrendo em um ritmo mais lento do que o inicialmente esperado. A declaração foi feita durante evento sobre política monetária, onde ele detalhou os desafios para a convergência da inflação para a meta de 3% no horizonte relevante.

Em sua fala, Campos Neto destacou que a inflação de serviços, que responde por cerca de 30% do IPCA, tem se mostrado particularmente pegajosa. "O realinhamento de preços relativos após a pandemia ainda está em curso. Setores como alimentação fora do domicílio, aluguel e planos de saúde continuam apresentando reajustes acima da média", detalhou. Ele também chamou a atenção para a inflação de núcleo, que exclui itens voláteis como alimentos e energia. A média dos núcleos de inflação recuou, mas ainda se encontra em níveis incompatíveis com a meta de inflação. "É fundamental olhar para os núcleos, pois eles nos dão uma visão mais clara da tendência subjacente da inflação", afirmou, ressaltando que a desinflação está ocorrendo, mas de forma mais gradual e heterogênea entre os diversos segmentos da economia.

Sobre o mercado de trabalho, Campos Neto reconheceu que o aquecimento do emprego é um fator positivo para a economia, mas admite que gera pressões de demanda em alguns setores. "Temos um dilema. O desemprego baixo é excelente para a sociedade, mas precisamos monitorar de perto o impacto disso nos preços", ponderou. A taxa de desemprego no Brasil atingiu 7,6%, o menor patamar para o período desde 2014, o que tem impulsionado a renda das famílias, mas também elevado os custos das empresas com folha de pagamento.

O cenário econômico brasileiro tem apresentado uma combinação desafiadora. O mercado de trabalho aquecido, com taxas de desemprego historicamente baixas, tem gerado pressão sobre os salários no setor de serviços. Além disso, o câmbio desvalorizado e as incertezas fiscais contribuem para a persistência inflacionária. A inflação medida pelo IPCA acumulada em 12 meses encontra-se acima do teto da meta, o que já levou o Comitê de Política Monetária (Copom) a interromper o ciclo de cortes na taxa Selic e sinalizar possíveis ajustes futuros. A alta nos preços dos alimentos e dos combustíveis também tem sido um fator de preocupação para as famílias brasileiras.

Um dos pontos mais destacados por Campos Neto em seu discurso foi a importância da âncora fiscal. O arcabouço fiscal aprovado pelo Congresso Nacional é um elemento central para a ancoragem das expectativas de inflação no longo prazo. "A incerteza fiscal é um dos principais vetores de risco para a inflação. Quanto mais previsível for a trajetória da dívida pública, mais eficaz será a política monetária", afirmou. A desancoragem das expectativas de inflação para prazos mais longos, como 2025 e 2026, preocupa o BC. Se os agentes econômicos acreditam que a inflação ficará acima da meta no futuro, eles tendem a reajustar preços e salários preventivamente, criando um ciclo inflacionário que se retroalimenta. "Quebrar esse ciclo é o nosso principal desafio", declarou Campos Neto, defendendo uma combinação de política monetária responsável e consolidação fiscal.

Com a inflação mais lenta para ceder, o Copom manteve a taxa Selic em 10,75% ao ano na última reunião, mas sinalizou que não hesitará em elevar os juros novamente se necessário. A comunicação do Banco Central tem sido no sentido de que a política monetária precisa permanecer contracionista por mais tempo para garantir a convergência da inflação. Para o consumidor, isso significa crédito mais caro e prazos mais longos para financiamentos. As instituições financeiras já começam a revisar suas projeções para o crescimento econômico, que pode ser impactado por juros mais altos. O mercado de trabalho, embora aquecido, pode sentir os efeitos de uma atividade econômica menos dinâmica no segundo semestre.

A relação institucional entre o Banco Central autônomo e o governo federal tem sido marcada por declarações públicas por parte de membros do Executivo criticando o nível de juros. No entanto, Campos Neto tem adotado um tom técnico e conciliador nas falas públicas. "Não há conflito entre o BC independente e o governo. Nós temos o mesmo objetivo: o bem-estar da população brasileira. A divergência reside, às vezes, nos instrumentos e no tempo para alcançá-lo", disse. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também tem se manifestado sobre a importância do controle da inflação e da responsabilidade fiscal. A parceria entre as duas pastas é considerada fundamental para a credibilidade do regime de metas de inflação. Campos Neto elogiou as medidas de aumento de receita e o esforço do governo para cumprir a meta de déficit zero, destacando que a política fiscal contracionista ajuda a política monetária a fazer menos força para controlar os preços.

Analistas de mercado repercutiram as declarações de Campos Neto com cautela. A maioria das instituições financeiras consultadas pelo Boletim Focus já elevou suas projeções para a inflação de 2024 e 2025. A expectativa é de que o BC mantenha uma postura vigilante. Economistas destacam que a credibilidade da política monetária depende de ações concretas. "O discurso de Campos Neto é coerente com a necessidade de manter a inflação sob controle, mesmo que isso signifique um crescimento econômico mais lento no curto prazo", comentou o economista-chefe de uma grande corretora. A curva de juros futuros teve um leve fechamento, indicando que o mercado passou a precificar um menor espaço para cortes na Selic no curto prazo. O dólar comercial encerrou o dia cotado a R$ 5,72, estável, refletindo a acomodação das expectativas após a fala do presidente do BC.

As perspectivas para a inflação no Brasil dependem de uma combinação de fatores: a política fiscal do governo, o cenário externo (especialmente a política de juros nos EUA) e a evolução dos preços das commodities. Campos Neto reiterou que o Banco Central está comprometido com a meta de inflação e que tomará as medidas necessárias para assegurar o poder de compra da moeda. O mercado estará atento à próxima reunião do Copom, onde novas projeções serão apresentadas. A expectativa é de que o comunicado mantenha o tom mais firme, indicando que o ciclo de flexibilização monetária pode demorar mais para ser retomado. As próximas divulgações do IPCA serão fundamentais para calibrar as expectativas. Qualquer sinal de piora na inflação de serviços ou na inflação industrial pode provocar uma reversão nas expectativas de política monetária, levando a um aperto adicional.

Perguntas frequentes sobre a declaração de Campos Neto

1. Por que a queda da inflação está mais lenta?
A inflação de serviços e a desancoragem das expectativas são os principais fatores que tornam o processo de desinflação mais gradual no Brasil.

2. O que significa inflação de núcleo?
São medidas de inflação que excluem itens de maior volatilidade, como alimentos e energia, fornecendo uma visão mais clara da tendência inflacionária de longo prazo.

3. Como a queda lenta da inflação afeta os juros?
A lentidão no processo de desinflação impede que o Banco Central reduza a taxa básica de juros (Selic) no curto prazo, mantendo o crédito mais caro para empresas e consumidores.

4. O que o mercado espera para a inflação em 2025?
As projeções do Boletim Focus indicam que a inflação deve convergir para o centro da meta apenas no final de 2025 ou início de 2026, dependendo da política fiscal e do cenário externo.