Política é considerada um assunto ‘pouco importante’ para mais da metade dos brasileiros

Por Redação O Tabloide4 min de leitura

Mais da metade dos brasileiros (52,3%) considera a política um assunto "pouco importante" ou "nada importante" para o seu cotidiano. É o que aponta uma pesquisa inédita do Instituto DataPoder, em parceria com o Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), divulgada com exclusividade ao O Tabloide.

O levantamento, realizado entre os dias 4 e 25 de março de 2024, ouviu 4.200 pessoas em 150 municípios brasileiros. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O estudo traça um raio-X preocupante da relação do cidadão brasileiro com a democracia e a política institucional.

O abismo geracional

O dado mais expressivo da pesquisa é o abismo geracional. Entre os jovens de 18 a 24 anos, o índice de desinteresse dispara para 71,3%. Já na faixa dos 60 anos ou mais, 58,7% dos entrevistados afirmam que a política é "importante" ou "muito importante" em suas vidas.

"Os jovens de hoje cresceram em um ambiente de hiperpolarização e crise de representatividade. Para eles, a política institucional é percebida como um espaço de conflito estéril e distante da realidade, e não como uma ferramenta de transformação social", explica a Dra. Marina Vasconcelos, coordenadora da pesquisa e professora de Ciência Política da UFMG.

Os motivos do desencanto

Entre os principais motivos apontados pelos entrevistados para justificar o baixo interesse estão a corrupção e a falta de honestidade dos políticos (42% das respostas), a polarização política excessiva (31%) e a falta de representatividade social e etária (29%). Outros fatores citados foram o cansaço com as brigas partidárias (27%) e a dificuldade de compreender a linguagem política (18%).

"O brasileiro médio se sente excluído do debate político. A linguagem técnica, os interesses escusos e a falta de conexão com os problemas reais da população criam uma barreira intransponível. A política precisa ser traduzida para o dia a dia das pessoas", analisa o cientista político Dr. Paulo Ricardo Almeida, pesquisador associado ao DataPoder.

Riscos para a democracia

Para os especialistas ouvidos pela reportagem, o cenário é alarmante. O desinteresse pela política não é apenas um sintoma social, mas uma ameaça direta à saúde democrática do país. A baixa participação popular abre espaço para o fortalecimento de discursos autoritários e para a manipulação da opinião pública por meio de notícias falsas.

"Uma sociedade que se desinteressa pela política deixa de fiscalizar os gestores públicos. A consequência direta é o aumento da impunidade, a perpetuação de más gestões e a vulnerabilidade a discursos populistas e autoritários. A democracia precisa de participação, mesmo que seja uma participação crítica", alerta o advogado constitucionalista Dr. Fernando Mendes.

A pesquisa também revela que 34% dos brasileiros não sabem o nome do partido do presidente da República, e 52% não conseguem identificar o nome de um deputado federal do seu estado. Esses dados escancaram a distância entre a população e as instituições que deveriam representá-la.

O que pode ser feito?

Quando questionados sobre o que poderia aumentar o interesse pela política, os entrevistados sugeriram:

  • Educação política nas escolas desde o ensino fundamental (51% das respostas)
  • Canais digitais mais diretos e interativos com os representantes eleitos (33%)
  • Transparência total nos gastos públicos e salários dos políticos (28%)
  • Simplificação da linguagem nos debates e propagandas oficiais (22%)

"A saída é a educação e a transparência. Precisamos de um pacto nacional para inserir a educação política no currículo escolar. O cidadão precisa entender que a política não é um bicho de sete cabeças, mas a ferramenta que define o orçamento da saúde, a qualidade da educação dos seus filhos e o valor dos seus impostos", defende a professora Marina Vasconcelos.

Vozes da população

A reportagem ouviu cidadãos em Brasília, São Paulo e Belo Horizonte para entender o sentimento na rua. "Eu já tive muito interesse, mas hoje em dia cansei. São sempre as mesmas promessas, os mesmos escândalos. A sensação é que o meu voto não faz a menor diferença", desabafa o metalúrgico João Batista, 45 anos.

"Acho a política super importante, mas é muito desgastante acompanhar. Tento me informar, mas é tanta briga e tanta fake news que a gente acaba se afastando pra não ficar maluco", conta a estudante Larissa Souza, 22 anos.

O estudo completo do DataPoder em parceria com a UFMG será disponibilizado no site do instituto. Os dados regionais e o recorte por faixa de renda e escolaridade também serão publicados nos próximos dias.