Senado conclui 1ª restauração de obras danificadas nos atos golpistas

Por Redação O Tabloide ~4 min de leitura

O Senado Federal concluiu a primeira etapa de restauração do acervo artístico e histórico que foi vandalizado durante os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. O anúncio foi feito nesta semana pela direção da Casa, que classificou o trabalho como um marco na reconstrução da memória institucional do país. As peças recuperadas incluem pinturas de artistas consagrados, móveis históricos e objetos decorativos raros.

Naquele fatídico dia, uma multidão de invasores tomou conta do Palácio do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal. O Salão Negro do Senado, que abriga obras que contam a história do Brasil, foi um dos locais mais atingidos. Telas foram rasgadas, móveis históricos foram quebrados e obras de arte foram atiradas ao chão.

Entre os itens totalmente restaurados está a monumental tela "A Constituição", do artista goiano Siron Franco. Com 30 metros quadrados, a obra foi rasgada em diversos pontos pelos invasores que ocuparam o Salão Negro do Senado. O minucioso trabalho de restauração envolveu a reintegração de camadas pictóricas e a reconstituição da tela, um processo que demandou mais de seis meses de trabalho intensivo.

A tela "A Constituição" de Siron Franco não é apenas uma obra de arte; ela é um documento visual da história política brasileira. Pintada em 1989 para celebrar o centenário da Proclamação da República, a obra retrata figuras emblemáticas da Assembleia Constituinte de 1988, como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Lula. Sua destruição foi vista como um ataque simbólico ao próprio processo democrático. A restauração, liderada pelo ateliê do Senado, contou com a consultoria do próprio artista, que aprovou cada etapa do trabalho.

Outra peça de valor inestimável que passou pelo processo de restauro é o relógio de pêndulo do século XVIII, obra do ourives francês Balthazar Martinot. O relógio foi um presente da Coroa Francesa a Dom João VI e faz parte do acervo histórico do Senado desde o Império. Durante a invasão, a peça foi derrubada, sofrendo danos estruturais. A recuperação exigiu a recomposição de delicados ornamentos em metal dourado e a restauração do mecanismo de funcionamento original.

O relógio Balthazar Martinot é uma peça que remonta ao século XVIII, uma das mais antigas e valiosas do acervo do Senado. Feito em bronze dourado e mármore, seu mecanismo é uma obra-prima da ourivesaria francesa. A restauração do mecanismo foi confiada a um relojoeiro especializado, que precisou fabricar peças de reposição idênticas às originais para garantir o funcionamento perfeito.

O Vaso de Sèvres, uma das raríssimas porcelanas do enxoval do Imperador Dom Pedro II, foi estilhaçado em dezenas de fragmentos. A equipe de restauradoras do Senado, em parceria com técnicas da Universidade de Brasília (UnB), realizou um verdadeiro trabalho de arqueologia para recompor a peça.

"Cada fragmento foi catalogado e estudado. O processo foi como montar um quebra-cabeças tridimensional, onde a precisão e a paciência foram fundamentais", relatou a restauradora-chefe, Ana Paula Batista. O trabalho foi conduzido pela equipe de restauro do Senado em parceria com especialistas da Universidade de Brasília (UnB) e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Para o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, a conclusão da restauração transcende o valor material das obras. "Restaurar cada uma dessas peças é um ato de resistência democrática. É a prova de que a barbárie não venceu e de que o patrimônio do povo brasileiro será sempre preservado. Esta é uma vitória da cultura e da história sobre a violência e o ódio", afirmou.

A diretora do Museu do Senado, Giselle Ribeiro, anunciou que as obras restauradas serão exibidas ao público em uma exposição especial intitulada "Memória Restaurada", prevista para o segundo semestre deste ano. "Queremos que a sociedade veja o que foi destruído e, principalmente, o que foi recuperado. É um exercício de memória e cidadania", explicou.

A exposição "Memória Restaurada" pretende não apenas exibir as peças, mas também contar a história do processo de restauração através de painéis, vídeos e registros fotográficos. A ideia, segundo os curadores, é mostrar a complexidade do trabalho técnico e a importância da preservação do patrimônio público.

A segunda fase do projeto de restauração já foi iniciada e tem como foco a recuperação de documentos históricos, livros raros, mobiliário e esculturas que também foram danificados durante os ataques. Segundo a administração do Senado, o investimento total na recuperação do patrimônio cultural é de aproximadamente R$ 3 milhões.

A conclusão da primeira fase do restauro foi celebrada por historiadores e especialistas em patrimônio. Para a professora de História da Arte da UnB, Lúcia Mendes, "a restauração dessas peças não apenas preserva a memória, mas também reafirma a função social do patrimônio como testemunho da nossa trajetória democrática. O trabalho do Senado serve de exemplo para o país".

O deputado federal Rogério Correia (PT-MG), presidente da Comissão de Cultura da Câmara, elogiou a iniciativa do Senado e afirmou que a Câmara também está em processo de restauração de seu acervo danificado. "É um trabalho conjunto das duas Casas no sentido de mostrar que o patrimônio público é inegociável e que a democracia venceu", disse.

A restauração do acervo do Senado se tornou um caso de estudo internacional. Técnicos do Museu do Louvre, na França, e do Instituto Central de Restauro da Itália manifestaram interesse em conhecer a metodologia aplicada pela equipe brasileira. "O mundo está de olho no que fizemos aqui. Mostramos que é possível reverter o dano causado pelo ódio com técnica e amor à história", finalizou Ana Paula Batista.