Um levantamento sorológico realizado pela Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo revelou que mais de 98% da população adulta da capital paulista apresenta anticorpos contra o SARS-CoV-2, seja por infecção prévia ou vacinação. O estudo, que analisou amostras de sangue de mais de 5 mil voluntários entre janeiro e fevereiro de 2024, indica uma alta cobertura imunológica na cidade. Os resultados foram divulgados nesta quarta-feira (15) e reforçam a eficácia das campanhas de vacinação em massa.
Os pesquisadores coletaram sorologia de adultos entre 18 e 90 anos, em todas as regiões de São Paulo. As amostras foram testadas para a presença de anticorpos IgG contra a proteína Spike do coronavírus. Dos participantes, 98,4% apresentaram soropositividade, com níveis mais elevados entre aqueles que tomaram a dose de reforço da vacina nos últimos seis meses. Apenas 1,6% não apresentou anticorpos detectáveis, grupo composto majoritariamente por pessoas imunossuprimidas ou com esquema vacinal incompleto.
O secretário municipal da Saúde, Luiz Carlos Zamarco, classificou o achado como “extremamente positivo”. Ele destacou que a alta prevalência de anticorpos mostra que a população está protegida contra formas graves da doença, embora a circulação de novas subvariantes exija monitoramento contínuo. “A vacinação salvou vidas e continua sendo a principal ferramenta contra a covid-19”, afirmou.
Como foi feito o estudo
A pesquisa foi conduzida pelo Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal da Saúde em parceria com Instituto Butantan e Faculdade de Medicina da USP. Foram sorteados 5.200 participantes estratificados por faixa etária, sexo e região (Norte, Sul, Leste, Oeste e Centro). Cada voluntário respondeu a um questionário sobre histórico de vacinação e infecção prévia, além de fornecer amostra de sangue para análise laboratorial.
Os exames utilizaram o ensaio imunoenzimático (ELISA) para detecção de IgG anti-Spike. O limite de positividade foi definido conforme padrões internacionais. Os resultados foram ajustados por fatores demográficos para garantir representatividade populacional. A margem de erro estimada é de 1,2 ponto percentual para mais ou para menos.
Vacinação em massa foi determinante
São Paulo foi uma das primeiras cidades brasileiras a atingir altas coberturas vacinais contra a covid-19. Desde janeiro de 2021, a campanha municipal já aplicou mais de 40 milhões de doses, incluindo vacinas da CoronaVac, AstraZeneca, Pfizer e Janssen. O estudo confirma a importância da imunização em massa: entre os vacinados com três ou mais doses, a taxa de soropositividade chegou a 99,5%. Já entre os não vacinados, o índice caiu para 72%, evidenciando o impacto direto da vacinação na proteção individual e coletiva.
Os dados também mostram que a imunidade híbrida (vacinação combinada com infecção prévia) produziu os maiores títulos de anticorpos. Os participantes que tiveram covid-19 e completaram o esquema vacinal apresentaram níveis de anticorpos até três vezes maiores do que aqueles apenas vacinados sem infecção registrada.
E a proteção contra novas variantes?
Embora os anticorpos neutralizantes contra as variantes originais do SARS-CoV-2 sejam elevados, os especialistas ponderam que a proteção contra novas cepas, como a JN.1 e a KP.2, pode ser reduzida. O estudo não avaliou diretamente a neutralização viral, apenas a presença de anticorpos. Porém, pesquisas anteriores indicam que a imunidade celular (linfócitos T) permanece robusta mesmo diante de mutações.
“A presença de anticorpos IgG indica exposição ao vírus ou à vacina, mas não garante proteção total contra infecção”, explica a infectologista Carla Kobayashi, do Hospital das Clínicas da USP. “A boa notícia é que a maioria da população tem memória imunológica, o que reduz o risco de hospitalizações e mortes.”
O que esperar para os próximos meses?
Com a alta cobertura sorológica, a Secretaria Municipal da Saúde planeja manter a vacinação de rotina para grupos prioritários e monitorar a chegada de novas variantes. A recomendação é que idosos, imunossuprimidos e gestantes recebam doses de reforço anuais. A meta é evitar um novo surto que sobrecarregue o sistema de saúde.
A pesquisa será repetida semestralmente para acompanhar a queda natural dos anticorpos ao longo do tempo. “Precisamos entender a dinâmica da imunidade na população para ajustar as estratégias de vacinação”, afirma Zamarco.
Especialistas comentam
Para o epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas, os dados de São Paulo são animadores e podem servir de referência para outras capitais. “Ter 98% da população adulta com anticorpos é um feito notável do SUS e da adesão da população. No entanto, é crucial não relaxar a vigilância, pois o vírus continua evoluindo.”
Já a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) reforça a necessidade de manter altas coberturas vacinais em crianças e adolescentes, que ainda apresentam índices mais baixos. A faixa etária de 5 a 11 anos teve 87% de soropositividade, abaixo da média geral.
O estudo completo será publicado nos próximos meses em revista científica revisada por pares. Até lá, os pesquisadores disponibilizam os dados preliminares no site da prefeitura.
Conclusão
Mais de 98% dos paulistanos adultos têm anticorpos contra a covid-19, um reflexo direto da vacinação em massa e da exposição natural ao vírus. A capital paulista demonstra que é possível controlar a pandemia com medidas de saúde pública eficazes. No entanto, a manutenção da imunidade e a adaptação às novas variantes continuam sendo desafios para os próximos anos.