A Secretaria de Mobilidade Urbana de Natal anunciou na última segunda-feira que o sistema de transporte público da capital potiguar passará a operar com apenas 20% de sua frota total em caráter emergencial. A decisão foi tomada diante da drástica redução no número de passageiros, consequência direta das medidas de isolamento social adotadas para conter o avanço da pandemia de Covid-19 na região.
De acordo com a STTU, a medida visa equilibrar a oferta de transporte coletivo com a demanda atual, que caiu para menos de um quarto do volume registrado em períodos anteriores à crise sanitária. "Estamos acompanhando diariamente o fluxo de passageiros e ajustando a frota para evitar ônibus circulando com capacidade ociosa, o que representa desperdício de recursos públicos e privados", afirmou o secretário municipal de Mobilidade Urbana, em pronunciamento oficial.
A frota emergencial de 20% significa que, dos cerca de 600 ônibus que normalmente operam na cidade, aproximadamente 120 estarão circulando. Os veículos serão distribuídos nas principais linhas e corredores de transporte, com prioridade para os itinerários que atendem regiões mais populosas e unidades de saúde.
Impacto para os usuários
Usuários do sistema relataram dificuldades nos primeiros dias de operação. A dona de casa Maria Aparecida Silva, moradora do bairro de Neópolis, contou que o tempo de espera nos pontos praticamente triplicou. "Antes eu esperava uns 15 minutos, agora estou ficando mais de 40 minutos esperando o ônibus. E quando ele chega, já vem lotado", reclamou.
A STTU informou que está monitorando a situação e que ajustes podem ser feitos ao longo dos próximos dias. "É um plano emergencial, dinâmico. Assim que houver retomada gradual da demanda, a frota será ampliada proporcionalmente", garantiu o secretário.
Reação dos trabalhadores e empresas
A medida também gerou repercussão entre os trabalhadores do setor. O Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do Rio Grande do Norte manifestou preocupação com a manutenção dos postos de trabalho e com a segurança sanitária dentro dos veículos. "Os motoristas e cobradores estão na linha de frente, expostos diariamente. É fundamental que a STTU garanta EPIs e condições adequadas de trabalho", declarou o presidente do sindicato.
As empresas concessionárias, por sua vez, afirmaram que a redução da frota era inevitável diante da queda de arrecadação. Em nota conjunta, as empresas que operam o sistema de transporte público de Natal disseram que a medida é "uma resposta necessária à realidade econômica imposta pela pandemia" e que "a prioridade é manter o serviço funcionando para quem precisa, dentro das possibilidades atuais".
Especialistas apontam fragilidade do modelo
Especialistas em mobilidade urbana apontam que a situação expõe a fragilidade do modelo de transporte público baseado exclusivamente na tarifa paga pelo usuário. "A pandemia escancarou um problema que já existia: a dependência excessiva da bilhetagem para financiar o sistema. Precisamos discutir fontes alternativas de custeio, como subsídios públicos e parcerias com o setor privado", avaliou o professor de engenharia de transportes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
A Câmara Municipal de Natal também se manifestou sobre o assunto. Vereadores da Comissão de Mobilidade Urbana solicitaram audiência pública para debater a situação e cobrar transparência da STTU sobre os critérios adotados para a definição das linhas que continuariam operando. "Não podemos permitir que a população mais carente, que depende exclusivamente do transporte público, seja a mais prejudicada", afirmou um dos vereadores autores do requerimento.
Orientações à população
Enquanto a pandemia segue impactando a rotina da cidade, a orientação da STTU é que a população evite deslocamentos não essenciais e, quando necessário, busque se informar sobre os horários e itinerários disponíveis por meio dos canais oficiais da secretaria. A prefeitura também recomenda o uso obrigatório de máscara dentro dos ônibus e a higienização frequente das mãos com álcool em gel.
A expectativa é que, com o avanço da vacinação e a consequente retomada das atividades econômicas, a frota seja gradativamente restabelecida ao longo dos próximos meses. Não há, no entanto, previsão oficial para o retorno à capacidade total de operação.
A pandemia escancarou um problema que já existia: a dependência excessiva da bilhetagem para financiar o sistema. Precisamos discutir fontes alternativas de custeio.
A Prefeitura de Natal informou que manterá os canais de comunicação abertos para receber sugestões e reclamações da população sobre o transporte público. A STTU disponibiliza o telefone 0800-281-1000 e o aplicativo Natal Mobilidade para acompanhamento em tempo real dos horários dos ônibus em circulação.